26 de jan. de 2012

Ai como era gostoso o meu intelectual vintage


"A academia americana é parte de uma sociedade letrada, e que as pessoas estão condicionadas para produzir mensagens escritas a serem interpretadas literalmente, mesmo quando essas mensagens são verbalizadas. É como se o seu ideal fosse 'falar como se escreve', expresso através do qualificativo elogioso de 'muito bem articulado' (extremely articulated), atribuído a quem o realiza. [...]
Na academia essas características se exprimem não se concebendo um intelectual que não escreva, quanto mais se for aluno ou professor universitário [...]. Isto contrasta com a nossa academia, onde é frequente o caso de professores sem obra escrita, mesmo assim consagrados enquanto detentores de um saber e de uma técnica adequada à sua transmissão capazes de garantir insofismavelmente sua posição institucional, pelo menos no passado recente. A padronização da formação e a avaliação numérica dos professores e pesquisadores têm contribuído para diminuir essa característica nos últimos anos. Mas esse processo ainda suscita acaloradas discussões sore sua adequação e pertinência (Nota à 3°Edição).
Exemplos desses contrastes acadêmicos podem também ser retirados das respectivas Reuniões das Associações de Antropologia e das regras e práticas que ali estão presentes. As da American Anthropological Association (AAA), anuais, com uma agenda rígida que se programa com umano de antecedência, estabelecendo várias etapas para a aceitação de trabalhos que devem ser apresentados em várias versões e que têm seu número de palavras controlado, até em sua versão final, lida num espaço de tempo preciso e improrrogável. As da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), com uma agenda flexível, admitindo inscrições de trabalhos na hora (apesar de serem bianuais) sem disciplinar o tempo ou o número de exposições, o mais das vezes orais, mesmo quando está disponível um texto escrito para leitura. Aliás, a leitura não deve nem mesmo ser tentada, pois 'cansa' o auditório... Mais, as reuniões dos grupos de trabalho da ABA, à semelhança dos seminários da pós-graduação se têm hora para começar, não a têm para terminar. Dessa forma, não dispõem de limites de tempo, sendo sua extensão além do período previsto um sinal de interesse e motivo de orgulho de participantes e organizadores."

E assim fala Roberto Kant de Lima, dando o seu recado e opinião sobre o produtivismo acadêmico no livro A Antropologia da Academia: quando os índios somos nós[es], páginas 50-52.

E assim (de novo), Lima dá um banho de amargor em nossas pessoas cabeçudas bem distantes do tipo de intelectual tupiniquim-sexy-cool que chega no evento e diz o que quer falar. Aliás, vamos combinar que ele tampouco sabe o que fazer com o passado recente que sumiu, afinal fomos colonizados nos mil caracteres e não há muito espaço para devaneios improdutivos.
Óh. Como era gostoso ser intelectual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário